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EUA estão tentando estrangular economia iraniana, avalia professora

Forças dos Estados Unidos realizaram ataques a várias cidades costeiras iranianas, atingindo cerca de 90 alvos na província de Bushehr. Segundo o Irã, os bombardeios alcançaram uma área próxima à uma usina nuclear local, gerando repercussão internacional imediata sobre as implicações estratégicas e humanitárias do conflito.

Para Mariana Kalil, professora de geopolítica da ESG (Escola Superior de Guerra), a escolha dos alvos vai além da dimensão nuclear.

“Para além de um ataque perto de uma usina nuclear, a gente teve, entre esses 90 ataques, um ataque muito importante a uma ponte que é responsável por grande parte do comércio do Irã com a Rússia e com a China”, afirmou Kalil em entrevista ao CNN 360º desta quinta-feira (9).

Na avaliação dela, “os Estados Unidos estão tentando estrangular a economia iraniana, inclusive nesses ataques mais recentes”.

Kalil explicou que atingir pontes e estruturas estratégicas faz parte dos objetivos táticos de uma guerra, visando impedir que o adversário mantenha sua força militar, econômica e política. No entanto, ela foi enfática ao condenar os ataques próximos a instalações nucleares.

“Ataques próximos às usinas nucleares são super condenáveis porque podem gerar desastres, inclusive com impactos ambientais muito importantes e impactos humanos extremamente relevantes”, disse.

Kalil também destacou que a Rússia foi amplamente criticada por adotar conduta semelhante na Ucrânia, e que os Estados Unidos, ao repetirem o padrão, perdem autoridade moral para criticar Moscou.

Perspectivas para um cessar-fogo

Mariana Kalil foi cautelosa ao analisar uma possível retomada das negociações entre Washington e Teerã. Segundo ela, a teoria predominante nas relações internacionais sugere que acordos de paz se tornam mais prováveis quando as partes envolvidas estão próximas do colapso.

“É uma teoria triste, a população precisaria sofrer, os governos precisariam ficar próximos de cair, mas, de acordo com essa teoria, a gente estaria longe de um acordo que de fato vingasse”, avaliou.

Ela apontou ainda a presença de Israel como uma variável complicadora, já que o país não está à mesa de negociações e possui objetivos distintos dos americanos, o que pode prolongar o conflito independentemente de qualquer entendimento bilateral entre EUA e Irã.

Kalil apontou que o Irã teria encontrado no controle do Estreito de Ormuz uma espécie de “bomba atômica” geopolítica, capaz de abalar a economia mundial. “E eu vou além: os Estados Unidos já sabiam disso”, afirmou.

Ela lembrou que, durante o governo Bolsonaro, os Estados Unidos chegaram a convidar o Brasil para realizar exercícios militares navais no Estreito de Ormuz, o que demonstra que a inteligência americana estava ciente da importância estratégica da região.

Para ela, isso levanta questionamentos sobre os reais motivos que levaram à decisão de bombardear o Irã neste momento.

Pressões internas

Na avaliação da professora, o conflito tende a se estender por um longo período. Ela destacou que Donald Trump enfrenta pressões internas crescentes, incluindo queda de popularidade associada à inflação e à contradição entre sua promessa de isolacionismo em política externa e o engajamento militar em curso.

“Os Estados Unidos são imprevisíveis quando a gente está falando de um governo Trump”, disse.

Por outro lado, a especialista ressaltou que o regime iraniano possui estruturas profundamente enraizadas, como a Guarda Revolucionária, o que torna improvável uma capitulação rápida.

“O Irã não é a Venezuela. Se o regime da Venezuela não caiu, apesar de estar sendo usado e instrumentalizado, certamente o regime iraniano irá demorar muito mais para cair”, ressaltou Kalil.

Segundo a professora, ainda haverá um período muito longo até que os dois países cheguem perto da desistência em relação ao conflito. Ela acrescentou que os próprios Estados Unidos podem ser os primeiros a recuar, pressionados pela opinião pública interna.

CNN Brasil